A Roxanne da Rua Augusta

 

 Por Juan Novaes

 

            O sol entrava pela janela sem vidro da casa de Valmir Silvério Lins, de 50 anos, expondo os pequenos e coloridos pontos reluzentes que teimavam em habitar seu rosto, a purpurina característica da profissão.

            A caixa de lenços que estava sobre a mesa, presente em todas as horas, era vasculhada de tempos em tempos para auxiliar na fala de Valmir, sempre muito emocionado.

            As lágrimas escuras (de uma maquilagem barata que envolvia seus olhos) desciam por sua face plástica, dando-lhe tons mefistofélicos. O vaidoso profissional do sexo consultava o espelho com o lápis na mão, retocando e ditando com pausas o ritmo da conversa.

            Os recém-completados 35 anos de profissão surpreendem: “Incrível a rapidez com que a velhice me abraçou e a relutância da clientela em não me abandonar”.

            Não só a idade do homem de aspectos femininos é interessante como também o uso do dinheiro que recebe com a prostituição.

            Para homenagear Sting, o cantor do “The Police” e o “homem mais lindo do mundo”, transformava-se em uma personagem de uma das músicas, Roxanne.

A sexta-feira na Rua Augusta, em São Paulo, trouxe-lhe um menino de aproximadamente 10 anos, maltrapilho, faminto e de aspectos rudes. Comovido, interrompeu sua busca por clientes e alimentou o jovem esgurido em sua casa. Nos dias que se seguiram, o pequeno aparecia no mesmo horário, com “um olhar pedinte e sedento por oportunidades”, em busca de alimento e companhia.

            O  “desajustado social” de Margareth Mead (antropóloga americana do século XX) arrumava seus cabelos brancos e longos enquanto falava sorrindo dessa nova amizade que nascia. O modo como enrugava a testa alegoricamente denunciava o esforço para se concentrar e captar os detalhes da gênese de uma paternidade acidental.

            Interrompendo o raciocínio abruptamente, lembrou-se rapidamente de seu pai: Aurélio Oliveira Lins que morreu enquanto “bebia de desgosto” com o eonismo do filho.

            A lembrança do pai deu-lhe expressões ainda mais confusas que as anteriores. Somente a mãe, ainda viva em seus pensamentos complexos, trouxe-lhe feições serenas. “Era linda, muito linda. Sabia que ela me amava?”

            Não quis revelar o nome da mãe tampouco o de seu filho adotivo. “Vergonha da sorte, é isso que ele tem.”

            Aproximadamente 30 anos se passaram desde o primeiro encontro. O menino – que hoje é um homem – colocara em xeque, o coração de Roxanne.

            O esforço para ajudar o menino em seus estudos gerou uma grande reviravolta nas duas vidas, digna de comemoração.

            Valmir decidiu – “tardiamente” – que era hora de parar. Seu filho, o “companheiro” das ruas que ficou sob seus cuidados, trabalha há alguns anos como contador e arca com todas as despesas da casa.

            A Rua Augusta já não vê Valmir Silvério Lins em busca de dinheiro, mas ainda serve de morada para os muitos meninos desabrigados que certamente não terão a mesma sorte que o filho de Roxanne.

            Mais do que a segurança de uma velhice garantida, a amizade construída em cima de alicerces de confiança e de amor perdura e serve de lição para aqueles que ainda acham que os sentimentos mais puros seguem quaisquer convenções.