Esta não é a história de Dr. Gonzo e Raoul Duke, ou, que se desfaça o roman à clef, Oscar Zeta Acosta e Hunter S. Thompson. Não há nenhuma viagem a Las Vegas. No máximo, há alguns passos pelo centro de São Paulo. Este também não é o conto de Meursault e seu advogado pouco talentoso, saídos da obra de Albert Camus. Antes, é a narrativa de uma garota que passa muita maquiagem e sai ao baile. Não se sabe se ela esconde a feiúra ou deixa o rosto mais atraente para os rapazes. Verborragicamente, nosso personagem abusa do blush e, como um baiacu que se permite inflar o ego, reconta dois crimes que ganharam os holofotes nos últimos dez anos.
“Eu defendi aquela loirinha”
A loirinha a que Mauro Otávio Nacif se refere é Suzane von Richtofen, ré confessa do assassinato dos próprios pais condenada a 39 anos de prisão. Ela foi cliente do advogado, que hoje atua no caso de Evandro Gomes Correia Filho, pagodeiro acusado de matar a própria mulher e ferir o filho, em 2008. Orientado por Nacif, o músico reapareceu em São Paulo em setembro deste ano fantasiado com peruca e barba postiças. A lei eleitoral proíbe a prisão de eleitores cinco dias antes e dois depois do pleito, o que garantiu a liberdade de Evandro.
O que o leva a atuar nesses casos, afirma ele, é só o dinheiro. Se o acusado ou a família consegue pagar o preço exigido, ele vai em frente. E seu trabalho tem sido muito procurado: em 44 anos de profissão, constam em seu currículo mais de 1.000 ações judiciais, em maioria crimes levados ao júri
popular.
A personalidade de Nacif é um caso à parte. Em tom de quem discursa a alguns milhares de pessoas, diz no primeiro contato com este repórter, por telefone, que é facilmente distinguível: “Eu sou alto e moreno. Pareço o Paulo Maluf”.
Impositivo, dispara logo depois, com todas as letras, que “um promotor bonitão, de 42 anos, se apaixonou por Suzane”. O sujeito em questão é Eliseu José Berardo Gonçalves, afastado do Ministério Público de Ribeirão Preto por 22 dias, entre 22 de novembro e 13 de outubro, sob a alegação de “descumprimento do dever funcional”. Berardo é suspeito de tentar seduzir Suzane em 2007, mas a nota divulgada pelo MP sobre a suspensão temporária do promotor não esclarece se a pena é atribuída a esse fato.
Nacif caminha pelos corredores do Palácio da Justiça cumprimentando inúmeras mãos. “Olá, doutor, é um grande prazer revê-lo.” Depois, acomodado em um sofá, ironiza ao tratar de outro colega de profissão: “ele é jovem, é bobinho”.
A graça dura pouco, porém. O advogado se lembra de ter recebido ameaças durante o julgamento de Suzane, que durou cinco dias. Na primeira vez, quase foi atropelado por um carro com duas mulheres, enquanto uma delas gritava que ele deveria morrer, por defender uma assassina. Também em casa, além das ruas, essas cenas ocorriam. Chegou a receber uma caixa de sapato disfarçada como uma bomba, com um bilhete condenatório: “ela é assassina. Tem que morrer. Pena de morte é pouco”.
Nacif diz que não tem dor de consciência, sejam quais forem os resultados dos julgamentos. Justifica isso afirmando que advogado não garante nada. “Quando um cliente meu é preso, me curvo à Justiça. Mas me sinto tranqüilo. Sei que sempre vou tentar a redução de pena”. Sobre a defesa de Suzane, comenta que “aquele foi um ‘caso lindo’, por que envolveu o princípio de coação moral irresistível”. Ela teria sido induzida pelo cunhado Christian e o namorado Daniel Cravinhos, interessados na herança que seria deixada a Suzane por Manfred e Marisia von Richtofen. “O namorado fez dela um robô!”
Nacif defende que Suzane não tem nada de louca, mas é “fria, compenetrada, certinha e muito objetiva” por ter recebido educação alemã. “É uma moça muito bonita, inteligente, fina.”
Sobre Evandro, comenta que o pagodeiro teria discutido com a esposa, Andréia Cristina Bezerra Nóbrega, que morreu depois de cair da janela do apartamento onde o casal morava. Na ocasião, o filho de Evandro e Andréia também se feriu, mas sobreviveu e atualmente vive com a família da mãe.
Na versão de Nacif, a mulher poderia ter se jogado da janela, acuada pelo marido. Também conta que Evandro diz não ter visto o filho no momento da briga. Apesar de tudo, o advogado revela que o músico teria traído a esposa com a irmã dela e que ele era (sem satanizar) “mulherengo”. A promotoria do caso defende a tese de que Evandro teria empurrado Andréia. Para a família de Evandro, comenta Nacif, que fala fácil, “Andréia é louca”. Ele diz acreditar em ambos os seus clientes, apesar das opiniões contrárias a eles.
Mas como não poderia deixar de ser, Nacif também se pronuncia sobre outras opiniões. Afirma que os jurados, nos julgamentos, não são influenciados pelo clamor público porque têm um compromisso com Deus e com a Justiça. Portanto, qualquer que seja a opinião pública, esta não surtiria efeitos sobre júri popular.
Depois de lidar com tanta gente, Nacif, que é divorciado e mora sozinho, se entretém assistindo a seus esportes favoritos na TV. Basquete e tênis, de preferência. Também gosta de fazer caminhadas e ler, apesar de não ter um autor favorito. “Minha cabeça está cansada, não leio um romance há 40 anos”, explica, ao contar o contraditório: em tempo livre, se dedica à leitura de processos.
Enfim, Nacif e seus dois casos não dariam filme ou livro. Música sim, até o Aerosmith já cantou o caso Suzane, em uma música de amor: “somos parceiros no crime”. A história de Evandro, porém, não é tão cômica quanto seu disfarce. E seu caso não é trágico o suficiente, até que se defina um inocente ou culpado. E Nacif não seria tão ovacionado. Não é psicodélico o suficiente para fazer de uma viagem à cidade proibida uma transmutação do ser em pura mescalina e recomendar bizarrices a um cliente, do tipo alugar um carro e dirigir em velocidade máxima. Os olhos não têm drama. A fala é quase ensaiada e não tem ternura. Os olhos, no máximo, configuram um clamor interno. Um grito de justiça. Para o próprio bolso.