Cantam cães mortos num buraco de alfinete

 

 

Por Leonardo Moreira

Imagens: Léo Sombra 

 

Com um nome de artista que já denunciava o futuro, Léo Sombra, batizado Leonardo Sombra de Araújo, chegou em São Paulo com 12 anos de idade, após a morte do pai. Oito anos depois começou a carreira de fotógrafo, com uma câmera quebrada e velhos papéis fotográficos. Tão exótico quanto a própria trajetória do rapaz que soma, atualmente, 24 primaveras, é o método adotado por ele: na ocasião em que ficou impossibilitado de trabalhar por falta de instrumentos, ecoaram em sua mente as aulas tomadas de fotografia pinhole. Basicamente, qualquer utensílio com o interior pintado de preto, completamente lacrado e com um pequeno furo [daí o nome: “buraco de alfinete”] é suficiente para a atividade, que nas palavras de Léo é “a fotografia mais primata que existe”.


 O olhar fugidio esconde a ansiedade que é a dor e o amor do rio grandense: fotografar com caixas e latas exige uma paciência de monge tibetano, já que a pouca captação de luz é compensada pela utilização de longos tempos de exposição. A incerteza sobre o resultado final, no entanto, é um dos grandes prazeres de Léo. Ele explica que não saber se o esforço vai valer a pena é o que o atrai no pinhole - e, apesar de não reprovar o uso de equipamento digital, alega que o combustível para a busca personagens e momentos memoráveis é o ritual de revelar o papel, aguardar a secagem e conferir o trabalho. Em uma dessas andanças, Léo capturou aquela que considera sua melhor foto: uma estátua que agora pode ser encontrada no portfólio do fotógrafo sob a alcunha de Singing In The Rain. A ideia para o registro surgiu quando, numa de suas idas ao trabalho, reparou pela primeira vez naquela obra. Desde então, ficava imaginando a melhor forma para gravá-la no papel, até o dia em que foi ao local para imortalizar o “movimento” da estátua, que, segundo ele, “é mais bonito do que a própria foto”.

  Os modelos mais fotografados por Léo Sombra com a técnica do pinhole são cães mortos. De repente, numa altura da vida, o fotógrafo se deu conta de que se deparava repetidamente com essas cenas. Atropelamentos, envenenamentos ou qualquer que seja a causa, ele sente que deve fotografar os animais. É uma obrigação, quase necrofilia sem a tara sexual. Assim, entre devaneios sobre a casa que ainda deseja construir com as próprias mãos, Léo veste o manto do pregador e revela morbidades silenciadas no caos da metrópole.

  Em um futuro que não se sabe o quão próximo será, o fotógrafo pretende elaborar um livro com suas imagens mais expressivas. “Gigantesco”, sonha ele, “do tamanho desta mesa”. Por enquanto, quem quiser conferir o trabalho de Léo Sombra pode acessar o site recém criado: https://www.leosombra.com.br/, no qual fotos convencionais e pinhole dividem páginas de ilustrações modernas e vintage, resultado de um exercício da curiosidade que Léo garante que quem faz uma vez, não para mais.